segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Ponteiros refletidos

Sentada sobre o parapeito da janela, uma xícara de chá quente esquentando meus dedos, cansada e sem sono demais para o usual café. O calor tinha finalmente dado trégua, dando lugar a uma noite fria mas com o ar ainda árido; não chovia há mais de uma mês.  Penso em como tudo mudou tanto em tão pouco tempo e ao mesmo tempo continua o mesmo. É exatamente como a vida, você está sempre mudando, mas no final das contas você continua sendo a pessoa com a mesmas manias e frescuras chatas, algumas ficando mais irritantes ainda, outras nem tanto. A questão é, no final a essência é a mesma. O ano já esta acabando e eu não cumpri metade das coisas que eu planejava; mas a lista é enorme, então eu me sinto pelo menos um pouco orgulhosa de mim mesma. Listas… listas e mais listas… Lembro de umas das minha primeiras que eu fiz ainda criança, e o primeiro item era "Cumprir todos os itens dessa lista", creio que eu não cumpri esse tópico, portanto eu não cumpri muitos outros, a culpa como sempre, é de nós mesmos. Pensando aqui comigo, vivemos nossa vida tão automaticamente que acabamos não dando valor à maioria das coisas do nosso dia-a-dia. Listas deveriam ser um lembrete do que fazer, de nossas ambições, e de que temos um propósito para viver. Deveriam ser um lembrete de que devemos aproveitar o tempo que temos. No final das contas não acaba sendo nada disso, o que acaba acontecendo é que ficamos tão agitados em concluir os itens, que esquecemos o propósito de tal coisa. Ou então acabamos largando tudo, esquecendo nossas aspirações e jogando fora o tempo por coisas inúteis. Coisas que acabamos fazendo sempre, todo dia; e é aí que nasce a rotina. Sinto que todo dia tento encontrar um tempo livre onde não existe, o dia possui 24 horas, não dá para você simplesmente atrasar o relógio e dizer que terás mais algumas horas extras. Pensando bem, é bem possível, pois nesse século que estamos o homem depende do relógio, mas nesse caso não seria uma coisa muito boa, você estaria sempre atrasado em relação  ao universo; pois você pode sabotar o homem e a ignorância do mesmo em relação ao tempo, mas não pode sabotar a orbe. Tomo mais um gole da minha xícara, o chá não tão mais quente por conta do vento gelado. O telefone está tocando, dessa vez eu resolvo não atender. Estou cansada, de tudo e de todos, e isso inclui a mim mesma. Já é noite e eu deveria estar dormindo, mas a sensação de não ter feito muita coisa hoje é frustrante demais para eu conseguir cair no sono. E é nesses momentos que, as vezes, eu encontro tempo para pensar; resolvo passar um tempo sozinha fazendo nada, só pensando, dando um tempo para apreciar a vida, porque nesse mundo onde vivemos tão desesperadamente devemos sempre, de vez em quando, parar, desacelerar, apreciar a vida, as pessoas, as mudanças, as tristezas, os sorrisos, o vento gelado, a cama quentinha, o miado do seu gato, a risada daqueles que você ama. A vida. A vista. O ritmo do seu coração avisando para aproveitar o que tens enquanto ele continua a bombear sangue para o seu corpo.

Olho para o relógio, daqueles estilo de bolso. Meu pai me deu em um aniversário, disse que era de família; o pai dele, meu vô, deu de presente quando ele tinha a mesma idade que eu na época, dizendo "O tempo é precioso. meu filho. Acredite no seu velho aqui, você só dará importância a ele quando você der conta de que o seu, esta acabando." E meu pai me entregou completando "Isso é um lembrete. Um lembrete do tempo, sobre o tempo, para o tempo. Se você não entendeu nada, um dia eu sei que entenderá, como eu entendo agora."


Meia-noite. Esse é o horário. Puxo o pino e giro, voltando uma hora. Bom, para tudo tem as suas exceções.


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Esse texto foi escrito por mim e já postado anteriormente em um dos meus antigos blogs. Resolvi postar novamente, achei que seria uma boa.